ANOTAÇÕES SOBRE SUBMODOS - EVERTON AUGUSTO

Submodo 01 – Em direção ao termo singular

- Algumas pessoas possuem dificuldade em focar algo específico. São vistas como dispersivas, pois não tratam diretamente da problemática envolvida. Isso é de acordo com a estruturação da pessoa, bom ou ruim de acordo com a EP dela e a situação/contexto em que se encontra.
- Este submodo serve para manter o foco existencial, para centrar em algo producente para a pessoa.
- Muitas vezes se precisa de focos, de direcionamentos. A aplicação deste submodo pode ser relevante em tais casos. Tudo conforme a EP e o que se está trabalhando em clínica.
- Como singularizar a pessoa? Termos como qual, este, esta, isto, assim, exatamente, o ponto, a questão, o que costumam levar a pessoa para o singular, para um foco que venha a contribuir com o processo clínico.
- Aplicando este submodo poderemos singularizar, dar nitidez, clarear, especificar. Levar a pessoa a considerações celulares, focais. Isso ajuda a clarear, desfazer confusões que a pessoa apresenta.
- Na aplicação deste procedimento o filósofo foca uma mesma questão, podendo fazer “chover considerações” acerca do dado celular que quer chegar.
- Algumas pessoas não conseguem se focar em algo específico, não conseguem pensar no singular. Elas podem estar interessadas apenas em considerações universais. Para tais pessoas seria um equívoco utilizar este submodo que estamos estudando. E isso se evita com a historicidade e a EP bem pesquisadas.
- Exercício: Procure utilizar em direção ao termo singular com alguém sobre questões de trabalho, sociedade e amizade.
- Quando usar em direção ao termo singular? Quando a pessoa apresenta algo que precisa ser esclarecido. Ex: “estou confuso, não sei o que está acontecendo. Quero clarear algumas coisas”. Assim procuraremos dar foco, nitidez e clareza a algo específico.
- O mundo de hoje tendo ao termo singular? Não é regra, mas muitas pessoas singularizam as coisas quando falam de si mesmas. Mesmo assim, muito do que ela expressa é carregado por traços de universais.
- Provavelmente, uma pessoa que diz “as pessoas são más”, “as pessoas são cruéis”, etc, está mencionando algo dela mesma como pertinente deste universal. Usando em direção ao termo singular pode-se mudar isso, focando para singularidades, dando novos rumos e novas perspectivas existenciais para a pessoa.
- Para aprofundar uma determinada problemática e agendar algo em direção ao termo singular ou qualquer outro submodo, devemos ter o conhecimento de como a pessoa funciona, sua historicidade, sua EP, para, então, aplicar o procedimento que encontra acolhida para a tentativa de resolução da problemática.
Submodo 02 – Em direção ao termo universal

- É utilizado para propiciar à pessoa uma experiência, uma visão do todo, do conjunto. A ética singeriana é um exemplo de universalização, pois o pensador discorre de forma a considerar as espécies vivas, englobando-as em sua argumentação e dando uma visão de totalidade.
- Quando utilizar em direção ao termo universal em consultório? Quando a pessoa não consegue vivenciar a vida por ficar presa a sua singularidade. Então devemos tentar restituir o termo universal que constatamos na historicidade da pessoa, resgatando aspectos da EP dela que a levam para o todo, para o universal. Quando ela retoma a visão do todo, a questão singular que a atormentava passa a ser secundária, uma coisa pouca frente à amplitude do mundo.
- Outra possibilidade de usar este procedimento é quando a pessoa está estilhaçada existencialmente, como no caso de psicose, na qual a cabeça da pessoa parece um liquidificador, com as coisas fragmentadas.
- Há pessoas que não suportam ir ao todo. Sua forma de ser não deixa abertura para universalização. Em tais casos não devemos usar em direção ao termo universal, pois isso será uma afronta ao mundo existencial da pessoa.
- Exercícios: 1) Identificar coisas, contextos, situações, elementos que me lavam a contemplar o universal. Em seguida, observe como ficariam os seus momentos de fratura, de vazio, de fragmentação se você usasse tais universais lá. 2) Se você considerar a história do Brasil como um todo, de que maneira você contextualiza os problemas atuais? 3) Considere sua cidade dentro do contexto do seu estado.


Submodo 04 – Em direção às idéias complexas

- Há pessoas que se metem em verdadeiras encrencas por derivarem idéias sucessivamente.
- Como identificar se a pessoa utiliza idéias complexas? Quando ela deriva idéias de idéias, desconectando ou distanciando seus pensamentos da realidade concreta.    
- Como retornar a pessoa de suas derivações? Ver na história dela quais os indícios que do que a trará para o chão. Vale lembrar que nem todos retornam via sensorial. Por vezes isso se dá por retroação, pelas emoções, por atalhos, etc. tudo depende da EP da pessoa e do caso que se está trabalhando. Provável e costumeiramente existem mais de uma maneira de se fazer isso, basta trabalhar sério.
- Este submodo pode ser utilizado com êxito se observarmos toda a instrumentalização da Filosofia Clínica.
- O que, se acontecesse hoje, resolveria todos os meus problemas? A partir da resposta, passamos a um vínculo de derivações. Assim é que se utiliza, se aplica este submodo.
- Quase sempre o que as pessoas derivam em suas idéias complexas manifesta quilo que elas são.
- Como usar este procedimento clínico? A pessoa irá apresentar a queixa mais ou menos assim: “Olha, eu estou com problemas, não consigo resolver minhas questões”. Devemos, então, diluir este problema até que ele fique etéreo. Assim é que se trabalha.
- Ao utilizar este procedimento, após conhecer o modo de ser da pessoa, estaremos levando em consideração a sua maneira de resolver suas problemáticas.
- Usando este submodo, iremos além do sensorial, de questões temporais e qualquer outra coisa.
- Existem pessoas que a vida se dá nas idéias complexas e não vivem (ou ignoram) a concretude, a vivência corpórea, o sensorial. Para tais pessoas este procedimento será um bom instrumento a ser usado.
- Por outro lado, existem pessoas que não suportam derivar idéias. Nestes casos não se aplica em direção às idéias complexas, pois seria uma afronta ao modo de ser da pessoa.
Exercício prático: Imaginar que tivesse ganho um prêmio de 20 mil reais na poupança, 2 anos de gasolina grátis e um carro na cor, modelo, tamanho, ano, acessórios e tudo mais de sua preferência. Como seria este carro? Depois, dar elementos de como seria uma viagem com este carro, para onde, se levaria alguém junto, porque, em que época, por quanto tempo...Depois, se tivesse que dar este carro, para quem daria e como será que seria a reação de quem receberia o carro?
- As perguntas nas colocações deste e de qualquer outro procedimento devem partir da história do partilhante e de sua EP, não por vontade do filósofo.
- É recomendado que não se use em direção às idéias complexas com usuários de drogas e em casos em que não se tem uma base sólida na EP e na historicidade da pessoa.


Submodo 05 – Esquema resolutivo

- São esquematismos, estruturas, fórmulas com que lidamos com os problemas na busca de uma resolução. São formulações que tem como objetivo resolver pendengas existenciais.
- Algumas pessoas utilizam esquemas resolutivos para quase todos os problemas da vida. Pessoas que o utilizam meditam, refletem, ponderam e somente depois agem nas situações que se apresentam. Geralmente, pessoas que têm esse modo de ser não se abalam frente aos problemas e procuram sair ilesas dos problemas, de suas questões.
- Algumas pessoas refletem e não conseguem chegar a uma resolução. Isso porque não se resolve os problemas apenas com o t.10 (raciocínio); às vezes esta reflexão, o raciocínio, é apenas um modo, mas não o suficiente para resolver todos os problemas.
- Muitos dos problemas de nossa vida não podem ser resolvidos pelo raciocínio, pela razão (t.10).
- Existem pessoas que são cartesianas, seguem uma mesma forma de comportamento por toda a vida. Tais pessoas entram em crises profundas, pois os esquematismos foram rompidos, algo de diferente ocorreu que levou-a a ficar mau. A pessoa, então, fica perplexa, como se nada mais tivesse significado.
- Quando lidamos com questões que se apresentam assim, com a pessoa que segue um padrão, uma das coisas que podemos fazer é tranqüilizar a pessoa de que existem várias possibilidades e caminhos existenciais, que ela pode vir a perder a namorada, que seu carro pode quebrar e que não há nada de errado em sofrer com algo que não ocorra como a gente queria.
- Existem coisas que não dependem só de nós, pois são as contingências da vida. Ninguém está livre de quebrar a cara. Somos seres humanos e em algumas situações isso nos torna limitados. Além disso, nossa vontade não implica em tudo sair bem.  
- Como se utiliza o esquema resolutivo? Primeiramente temos que ter uma proposição estabelecida, ou seja, o que vai ser trabalhado. Vale lembrar que às vezes a pessoa traz algumas proposições falaciosas. Então vamos a historicidade dela para ver se isso é factual ou invencionice. Para efeitos práticos, a proposição deve ser verificável, estar no termo singular, ser mais sensorial que abstrata, entre outros detalhes a se levar em consideração.
- Algumas pessoas possuem uma proposição do esquema resolutivo e não encontram modos de efetivar a resolução, ou seja, não encontram opções necessárias para dar um desfecho à situação.
- Depois de diagnosticada a proposição, devemos pesquisar junto à pessoa as opções, as possibilidades e formas que podem auxiliar na resolução, ou seja, o que a pessoa pode fazer na resolução do que ela propôs na proposição. Cabe lembrar que algumas pessoas não conseguem apresentar opções para tentar efetivar o que se propõe.
- Depois de apresentada a proposição e as opções de resolução temos que pedir detalhes sobre as opções que ela apresentou, a saber, os ganhos existenciais, os pontos positivos que tal opção acarretará para a pessoa. O passo seguinte do processo é saber das perdas, dos pontos negativos que a opção trará para a pessoa.
- Quase sempre temos que localizar a pessoa, desde sua proposição, passando pelas opções e pontos positivos e negativos para que ela não se precipite na validação ou não validação do que se está trabalhando.
- Para a validação (possibilidade de aplicação da efetivação) se leva em consideração os ganhos e as perdas subjetivas que cada opção que a pessoa apresentou. Se os ganhos forem maiores que as perdas para a pessoa, então é validada a proposição. Provavelmente a pessoa se sentirá melhor existencialmente após a aplicação do procedimento.
- Existem pessoas que não passam da proposição. Outras não chegam às opções e não conseguem ponderar os ganhos e as perdas acerca daquilo a que se propuseram. Algumas passam direto da proposição à validação. E muitas outras possibilidades de ser que podem aparecer em clínica (e na vida também).
- Algumas vezes na vida as pessoas se colocam algum propósito existencial e, mesmo as coisas saindo da forma como haviam planejado, algo nelas não está bem, algo incomoda, machuca. Isso ocorre porque acontecem choques. Uma das possibilidades para explicar isso é que as perdas podem anular os ganhos e, ainda assim, a pessoa utiliza o esquema resolutivo. Daí a dor, o incomodo que elas sentem.
- Às vezes o esquema resolutivo pode entrar em choque com algum tópico ou procedimento que torne inviável sua utilização. E, a priori, não sabemos como resolver isso. Exames categoriais e historicidade são aliados para compreender o que está havendo e, em seguida, procurar dar melhor rumo à terapia e à existência da pessoa.
- Podemos dar segurança para a pessoa apresentando um leque de possibilidades que podem existir em determinada questão. Assim a pessoa se sentirá com mais terreno para dar seus passos. Isso pode ser feito através de retroações, de atalho ligado às emoções, entre outras possibilidades, de acordo com a estruturação de cada indivíduo.
- Nem sempre a resolução é a que eu quero para mim. O mundo é muito mais do que aquilo que a gente acha que é. Sempre, ou quase sempre, existe algo de positivo que pode ser extraído de nossas vivências. Estar pronto para as diferentes formas com que os problemas se apresentam é uma boa dica. Aprender a diversificar as vivências, ampliar a visão de mundo para torná-lo melhor, mais confortável.
- Tentar sempre enraizar as questões que se apresentam no esquema resolutivo ajuda a ampliar os horizontes da pessoa. 


         Submodo 09 – Divisão

- Cada pessoa realiza divisões de formas próprias e diversas. É bem provável que alguns elementos fiquem de fora destas divisões.
- Quando o submodo é muito forte para a pessoa e ela deixou algo fora da divisão, isto que ficou à margem surgirá como algo que lhe foge da compreensão, beirando ao absurdo. Algumas pessoas não conseguem integrar o que foi deixado para trás, o que ficou de lado, no processo da divisão. Isso pode causar males ou traumas. Para outras pessoas, esse processo de integração do que foi deixado de lado é tranqüila. Daí a necessidade de saber em que situações utilizar ou não este procedimento.


         Submodo 10 – Argumentação derivada

- Diz respeito a trabalhar com a pessoa os motivos, as causas, os porquês, as razões.
- Para algumas pessoas os motivos de tal fato (como o término do relacionamento com um amigo) não interessam. Em tais casos será perda de tempo utilizar este submodo. Outras, porém, ficarão existencialmente destruídas se não encontrarem as razoes, os porquês para isso que aconteceu.
- Como chegamos às causas? Como chegar às respostas com as pessoas que, de fato, querem sabê-las? Pessoas que usam argumentação derivada vêem o mundo rodeado de porquês. Elas olham para as coisas e sempre querem saber o porque, a causa de tudo (é interrogativa, questionadora).
- Infelizmente, para muitas coisas não existem porquês; não há explicação para tudo. Eventualmente, isso acontece. Aí, devemos ver na EP da pessoa o que ocorre quando as respostas são escassas ou inexistem.
- Algumas pessoas não têm sustentabilidade para receber algumas respostas, ou seja, ficarão ainda mais machucadas existencialmente se receberem-nas. Outras pessoas ficarão assim, mau, se não receberem as respostas. Isso depende da EP de cada uma, da forma como a pessoa está estruturada.
- Sempre adequar a resposta à pessoa, utilizando termos de familiaridade dela. Ainda assim, algumas respostas serão inacessíveis ao partilhante.
- Quando a pergunta, o porque, a questão estiver calcada em sofismas, em falácias, devemos ter cuidado para não criarmos ainda mais problemas à pessoa.
- Algumas boas respostas para as indagações que surgem em clínica são vamos investigar isso, vamos trabalhar isso, vamos estudar seu caso...
- Algumas vezes as perguntas não querem respostas. Às vezes a pessoa pergunta como mero exercício de linguagem, um recurso lingüístico de retórica. A pessoa aparentemente quer uma resposta, mas talvez seja isso mesmo que ela não quer saber.
- Há perguntas que não são para serem respondidas, pois, se forem, quebrarão o encanto, a interseção que a pessoa tem para com algo.
- Se a pessoa foi mandada embora do trabalho. Na clínica é exatamente o porque disso que ela quer saber: “doutor,, porque eu fui mandado embora do trabalho?”. O que o filósofo clínico fará, então? Como dará as respostas à pessoa? Dará, de fato as respostas para a pessoa? O clínico deverá considerar a malha intelectiva da pessoa, do partilhante que está na sua frente, pois não haverá verdade universal em clínica. As respostas almejadas são singulares e dependem unicamente da criatura que está partilhando seu exercício existencial com o filósofo clínico.
- Para cada pessoa existem procedimentos únicos...


         Submodo 11 – Atalho

- Serve para abrir caminhos.
- Se eu pudesse optar entre a criatividade e entre os caminhos retos, prontos, qual a opção existencial que eu tomaria? Durante muito tempo a manutenção da tradição preponderou. Mas outras coisas fizeram romper isso, de forma a inovar na maneira de pensar, tais como Iluminismo, as Guerras Mundiais, o Renascimento...
- Atalho tem a ver com a doxa, com a inventividade, com a criatividade. Onde até então a razão ditava os caminhos, onde tudo parecia pronto e eterno surge a criatividade, o atalho.
- Ver diferente aquilo que a maioria vê por igual. Isso é uma característica própria da pessoa que se utiliza de atalho. Tal pessoa tem ojeriza das coisas prontas, dogmáticas. Isso é bom ou ruim de acordo com a EP da pessoa e as conexões tópicas que se dão nela.
- Quando lidamos com alguém que utiliza atalho percebemos isso, pois ela vai apresentar um leque de possibilidades acerca do caminho existencial que levamos a ela.
- Pessoas que usam atalho podem ser discriminadas por apresentarem inovações, por criarem sucessivamente novos caminhos existenciais, novas possibilidades para as coisas que se apresentam.
- Muitas pessoas mão sabem como conviver com quem usa atalho. Pessoas que utilizam em direção ao desfecho (submodo 06), por exemplo, podem ter esta dificuldade acentuada.
- Nem sempre esse processo de criação, o atalho, é algo benéfico à pessoa.
- A pessoa diz assim: “Eu costumo inventar coisas”, “vamos criar uma maneira”, “eu dou um jeito”... Isso denuncia que o atalho é algo que ela utiliza na tentativa de resolução dos seus problemas.
- Quando usamos atalho, estar cientes que críticas surgirão em decorrência disso. As criticas até podem ser uma meio de auxiliar no modo de como usar o atalho, de como inovar e de quando fazer isso.
- Como aprimorar a arte do atalho? Escolher uma situação do dia-a-dia, corriqueira, que eu faço no trabalho. Transformar isso, introduzir elementos que tornam essa situação ou atividade mais prazerosa, mais gratificante.
- Exercícios: 1- Identifique quando você utilizou atalho na vida e o que aconteceu. 2- Como eu lido com pessoas que utilizam atalho? 3- Na sua opinião, de que maneira nossa sociedade lida com os atalhos?


         Submodo 12 – Busca (não estive na aula)

- Diz respeito a acompanhar a pessoa existencialmente em seus endereços existenciais.



Submodo 14 – Deslocamento longo (não estive na aula)

- Utilizado em pessoas que precisam de distância, de afastamento para resolverem seus problemas existências.


Submodo 15 – Adição

- Utilizamos com pessoas que resolvem seus problemas existenciais usando, basicamente, matematizações. Existem coisas que não podem ser divididas matematicamente. Isso costuma causar problemas para algumas pessoas.
- Como identificar pessoas que fazem processos aditivos? Elas dão indícios e se percebe através da analítica da linguagem. “É a primeira, estou avisando”, “Mais uma, cuidado!” e termos do gênero. Outras pessoas adicionam por multiplicação e assim sucessivamente de acordo com a EP.
- Algumas pessoas montam equações dentro da cabeça delas. “Eu fui demitido três vezes, perdi duas esposas, bati meu carro duas vezes”. Para estas pessoas isto é muito sério. Elas vivem isso e levam à cabo as matematizações.
- Eu sei das partições da minha mente? Como traduzir a vida por cálculos?
- Como adicionar, o que adicionar, o que deixar de fora do processo aditivo depende da historicidade e da EP de cada pessoa.
- Não há nada de errado por a pessoa pensar sua vida por números. Isso não é, necessariamente, um problema. O problema é quando os números passam a ser determinantes do ponto de vista de tomar ou não decisões.
- Prestar atenção ao modo como a pessoa matematiza. A partir daí fazer o planejamento clínico necessário.
- Ver Herbert Marcuse, que, em Eros e Civilização, afirma que nós “nascemos, vivemos e morremos em cativeiro”, que segundo ele seria a estrutura da nossa sociedade; não conseguimos nos desvencilhar da forma como a sociedade está instituída.


         Submodo 16 – Roteirizar

- Diz respeito a processos de continuidade que são feitos e refeitos à partir dos processos laudativos (demorados, extensos) da existência.
- 1º modo de roteirizar: Mudar contextos. Consiste em deslocar épocas, construindo a história até o presente. Por exemplo: como seria sua vida se você não tivesse feito a escolha “X”? Desta forma, volta-se ao passado e mostra que haviam caminhos existenciais diferentes deste tomado; abre horizontes e um leque de probabilidades existenciais.
- Depois de ter a E.P. bem pesquisada, o filósofo ajuda o partilhante pontuando elementos a partir daquilo que ela vivenciou.
- Com o roteirizar, mostra-se as “N” possibilidades de caminhos existenciais que a pessoa pode tomar. Isso aliviará a pessoa, bem provavelmente.
- Devemos, então, estar seguros a historicidade da pessoa para, então, aplicar o submodo adequado à situação.
- 2º modo de roteirizar: Suprimir personagens e/ou eventos da vida da pessoa. Por exemplo: como seria a vida se tal pessoa não existisse em sua história?
- 3º modo de roteirizar: Inserir personagens e/ou eventos na vida da pessoa. Isso pode ser feito no passado, no presente ou no futuro, dependendo de como a clínica está transcorrendo.
- 4º modo de roteirizar: Roteiros paralelos. O roteiro criado pode não interferir em nada na vida da pessoa, mas lá na frente ele pode se chocar com outro roteiro (devemos ficar atentos à E.P. da pessoa para não cair em graves equívocos).
- 5º modo de roteirizar: Deslocar aspectos cronológicos na vida da pessoa. Atentar para quando a pessoa citar “naquele tempo”, “antigamente”. Pode-se resolver algum choque estrutural utilizando um outro tópico para roteirizar.
- Seja qual for o problema que passamos na vida, isso é um indicativo de vivências em nossa E.P. e de elementos que se chocam em nós mesmos e na interseção com os outros.
6º modo de roteirizar: Quebra de conceitos cristalizados. É a quebra de conceitos processuais em nossa forma ocidental de entendermos as coisas (aprendemos a pensar de um único ponto de vista, sendo que deveríamos ver por diversos pontos de vista, por diversos contextos). “Quebrar as coisas de mão-única; aprender a olhar e andar por outros caminhos existenciais”.
- Como exercitar isso? Quando a pessoa tem dificuldade de percepcionar que seu caminho existencial pode ser diferente do que é e sente dificuldade em exercer outro caminho, por outra via. Aí cabe o percepcionar, se a E.P. permite isso, claro.
- 7º aspecto para o roteirizar: Qualidade do roteiro. Alternar o roteiro da pessoa a partir da qualidade do roteiro da pessoa e da adequação da E.P. dela. Qual a qualidade do meu roteiro? Eu escrevi o meu roteiro ou ele foi impresso pela sociedade, família, fé, namorada, televisão?
- Algumas pessoas transformaram sua vida em horrores devido ao fato de terem criado roteiros péssimos e inadequados à sua E.P.
- 8º aspecto para roteirizar: Algumas pessoas são avessas à roteirizar. Elas vivem a vida, cada dia como ele se apresenta e não suportam planejar o amanhã. Isso costuma ficar explícito na fala da pessoa e não há nada de errado em ser assim. Mais tarde a pessoa pagará o preço por isso, bom ou ruim, não se sabe.
- Se a pessoa quer mudar o roteiro e não consegue, o que fazer? Para algumas pessoas o roteiro não é determinante. Já outras não sabem viver bem se não planejarem, se não criarem roteiros, se não roteirizarem.
- A pessoa pode criar um roteiro paro o estudo, outro para o namoro, um outro para o trabalho, etc, e estes roteiros podem ser conflitantes.
- Existem pessoas que roteirizam por recíproca de inversão, roteirizando e organizando a vida do filho, por exemplo.


Submodo 17 – Percepcionar

- Bom para lidar com fobias, desde que estejam ligadas aos tópicos 3, na partição sensorial, e 14, espacialidade.
- Indicado para mudar concepções de vida, situações de somatização.
- Vai alterar concepções, propriedades, experiências perceptíveis.
- Muda referências a respeito de algo. Busca lembranças que a pessoa tem de algo que foi vivenciado e se promove mudanças a partir daí.
- Como se faz o percepcionar? Temos que ter o quadro da cena, saber como ocorreu a ocasião para a pessoa. Assim, muda-se as variáveis de percepção da pessoa, retiradas da própria história dela.
- Para ver se a pessoa quebrou o medo de ratos, por exemplo, basta retornar à cena fóbica para ver o que a pessoa expressará a respeito.
- O medo, a fobia, não é necessariamente algo ruim que deva ser removido. Em alguns casos o medo é algo que protege a pessoa, que mais a protege para que não venha a sofrer existencialmente. Tem que levar em consideração toda a historicidade da pessoa e ter bem pesquisados os resultados da alteração em algum aspecto.
- Para que e no que percepcionar? Podemos até reverter casos de hipertensão, de saudade de um ente querido, etc.
- Na filosofia clínica não há formulas prontas. Devemos pesquisar bem a historicidade da pessoa e montar a E.P. com cautela para que nosso trabalho seja o mais producente possível.  
- Quando usarmos o roteirizar a pessoa precisará de um princípio comparativo para ver as possibilidades de existência além daquelas que vivenciou. Portanto, devemos ter ciência da história da pessoa, de sua E.P. para não entrar em equívocos.
- Exercício de roteirizar: Falar para um colega as coisas não como elas foram, mas da forma como eu gostaria que tivessem acontecido.
Exercícios de percepcionar: 1) Descrever ao colega como você percebe o frio; 2) Escolher um pássaro que goste e descrever o que vê quando sobrevoa Chapecó, quando dá vôos rasantes, quando sobrevoa as nuvens, etc; 3) Descrever misturas de comida que gosta.


         Submodo 20 – Tradução

- Tradução consiste na troca do dado de semiose para que algo seja melhor expresso pelo partilhante.


         Submodo 22 – Vice- conceito

- Dispositivo no qual se usa um símbolo como instrumento de relação com a realidade circundante.


         Submodo 24 – Retroação

- Diz respeito a retomar, gradativamente, conceitos, elementos, situações, eventos de modo a podermos acessar vivências e conteúdos da malha intelectiva da pessoa.
- Algumas pessoas perderam-se (inclusive delas mesmas) na trajetória da vida. Perderam o carinho, o afeto, a esperança. Se elas manifestarem o desejo de recuperar algo, a retroação pode ser utilizada – respeitando as singularidades do caso que se está trabalhando.
- Ao usar retroação, como a utilização de qualquer outro procedimento, devemos ter propriedade, respeitando o modo de ser da pessoa para não causar ainda mais sofrimento a ela.
- Como se faz retroação? Se a pessoa não lembra mais como ir até lá, temos na historicidade elementos que permitem-nos fazer a retroação, este recuo até o ponto desejado.
- Retroação pode ser definida como a maneira de retroagir passos existenciais até o ponto em que a pessoa recupera aquilo que perdeu em sua trajetória.
- Existe uma coisa que não podemos deixar de lado quando chegarmos na retroação: a atualização dos dados e dos conteúdos da pessoa.
- Se a retroação for apenas para uma revisitação ao passado, fecha a clínica e ponto final. Porém, se for para resgatar algo para a pessoa temos que atualizar os dados, utilizando procedimentos adequados para tanto.


         Submodo 25 – Intencionalidade dirigida

- Como guiar a vida de uma pessoa por um trecho que ela não consegue por si só? Não podemos nos guiar pela opinião da pessoa que nos procura. Se perguntarmos a um viciado em cocaína o que é melhor para que fique bem, provavelmente a resposta dele será “você tem um pozinho aí, doutor?”.
- As instituições religiosas, educacionais, etc., são exemplos de intencionalidade dirigida, porém, de forma coercitiva, pois é algo que pronto, fechado, dogmático, doutrinário.
- Refletir: Como eu lido comigo mesmo?
- No consultório, algumas vezes, a pessoa diz que está literalmente sem rumo, perdida, no fim da linha. Ela provavelmente quer que alguém tome as rédeas por ela e, neste caso, você está sendo procurado para direcioná-la pelo caminho. A pessoa quer que você direcione ela e para fazer isso temos os parâmetros da historicidade dela.
- Na clínica tem pessoas que saem nos odiando, pois nem sempre os caminhos a serem percorridos pela pessoa que nos procura são calmos e tranqüilos para ela.    
- Como se faz (como direcionar a pessoa)? Às vezes a forma como fazemos algo magoa profundamente alguém. Se tivéssemos feito a mesma coisa de uma forma diferente, tal ato/gesto provavelmente teria surtido resultados diferentes. Portanto, temos que ter base na historicidade da pessoa para utilizar este procedimento.
- A maneira como eu levo algo para a outra pessoa pode gerar um incômodo enorme, inclusive causar brigas e rompimento de relacionamentos. Menos mau que, por outro lado, pode fortalecer relacionamentos, causar bem-estar e promover felicidade.
- Alguns colegas acham que na atividade clínica temos que descartar os afrontamentos. Às vezes o afrontamento é a única forma de trabalhar com a pessoa, sendo um caminho urgente na clínica. Isso pode resultar duas possíveis reações por parte do partilhante: 1) a pessoa revê sua trajetória e continua a clínica ou 2) a pessoa se afasta da clínica e não volta mais.
- “Terapia não é adulação, bajulação. Às vezes temos que dizer algo que a pessoa não vai gostar”. Lúcio.
- Algumas pessoas se motivam frente às afrontas. Isso serve como uma mola que impulsiona seus crescimentos. Já outras, não suportam lidar com afrontamentos e isso é inconcebível a elas.
- Refletir: o corpo pensa? Há um raciocínio na corporeidade?
- Como utilizar intencionalidade dirigida somaticamente (levando à esfera corpórea)? Ter a pessoa como parâmetro, sua historicidade, sua E.P.
- Alguns cuidados são indispensáveis para não cometermos atrocidades em clínica e nas relações humanas em geral.
- O verdadeiro testemunho da Filosofia Clínica é o que a pessoa vivencia.

          Anotações feitas em aula pelo aluno Everton Augusto Corso